Conheça também:

Mercado Brasil - Novidades

2020: rumo à economia do conhecimento

Segundo o consultor Ricardo Neves, empresas precisam se preparar para as mudanças que a humanidade irá sofrer até 2020.

 


 

Matéria publicada na edição de outubro da Revista Mercado Brasil.

 

Kamila Schneider

 

Você já parou para pensar como o mundo estará daqui a uma década? A sociedade está passando por mudanças, isso é perceptível, mas será que o mundo sabe a dimensão dessas mudanças? E mais: será que está preparado para elas?

Para o consultor de estratégia, Ricardo Neves, esse será um período turbulento para a sociedade e a economia mundial. Com mais de duas décadas de experiência em empresas, organizações de desenvolvimento e governos, Neves observou e analisou os aspectos mais representativos desse fenômeno e afirma: a visão estratégica é a maneira mais eficiente de se preparar para o que o especialista chama de Futuro Desejável, ou onde queremos estar até 2020.

Em entrevista à revista Mercado Brasil, Neves fala sobre as influências que o processo de digitalização tem sobre a sociedade, a transição da economia pós-industrial para a economia do conhecimento, a importância de planejar os passos e conhecer os desafios e oportunidades para os próximos anos.

 

Mercado Brasil Em sua palestra, você irá trabalhar os passos para se desenvolver a Visão 2020. O que significa esse termo? Por que utilizar 2020 como referência?

Ricardo NevesEssa ideia vem na trilogia Renascença Digital, uma coleção de livros que eu escrevi. Esta década que iniciamos agora e que se prolonga até 2020 vai ser a década mais turbulenta e de maiores mudanças que a humanidade já passou. Aquela empresa que focar somente o “agora” vai ter uma miopia, não vai entender o que acontece no mundo e periga aterrissar de barriga em 2020, se não se esborrachar antes disso. A ideia é que vale a pena investir agora e redesenhar o que chamam de visão estratégica.É aquela coisa que fica lá na frente eindependente se ficar escuro, você sabe que o norte está lá. Essa ideia é uma provocação para que as empresa procurem desenvolver uma visão de médio e longo prazos que vai orientá-las.

 

MB Hoje as empresas focam pouco o futuro? Elas não estão preparadas para o que virá a seguir?

RN O que ocorre é que a maior parte das empresas está sufocada em resultado sem curto prazo. Então a empresa passa 99,99% do tempo com energia concentrada em ter resultados. É como dirigir um carro e olhar apenas os indicadores no painel e de vez em quando olhar para fora. Não podemos apenas olhar para fora, mas temos que olhar o que vem duas, três curvas à frente. Isso é definir estrategicamente.

 

MB Você afirma que esta é uma década de profundas mudanças na sociedade. Que fatores o levam a acreditar nisso?

RN A humanidade passa por uma fase que é a sociedade digital global, em que tudo o que o ser humano faz em termos de trabalho, consumo e estilo de vida está passando por um liquidificador que é a digitalização. A indústria fotográfica passou por isso ai ainda nos anos 90, mudou quase que da noite para o dia e teve que redefinir seus projetos. A mesma coisa vai acontecer com a mídia: provavelmente a maior parte dos jornais vai estar extinta do papel em 2020, não fará sentido, sobretudo num mercado em que a maior parte da população vai ter um tablet na mão, continua fabricando notícias numa cadeira produtiva totalmente insustentável. Essa é a maior das forças transformadoras que vamos viver ao longo dessa década, que vai afetar não somente a produção, mas também a forma como vivemos e nos relacionamos. E isso é só o começo.

 

MB Quais são os principais desafios que as empresas irão enfrentar nos próximos anos?

RN O primeiro desafio é ter colaboradores que sejam capazes de visualizar respostas para os problemas que estão emergindo. Significa que a coisa mais importante para a empresa passa a ser as pessoas com capacidade de pensar fora da caixa, o talento inovador.

O segundo desafio é reproduzir essas pessoas e conseguir criar um ambiente para que elas trabalhem como equipe. Não adianta ter “o iluminado” dentro da empresa, que vai fazer chover. Essas pessoas talentosas vão ter que possuir uma forma colaborativa de trabalhar.

 

MB Falando em oportunidades: no que as empresas devem investir?

RN As pessoas precisam entender que, cada vez mais, o mercado estará interessado em pessoas e empresas capazes de produzir soluções, e essas soluções devem ser individualizadas. As soluções têm a característica de que possuem bem mais valor agregado do que um mero commodity. Não adianta apresentar um produto ou serviço matador, o que importa é apresentar soluções para as necessidades de cada um – para as pessoas, soluções para ter controle sobre a vida, e para as empresas, sobre os processos.

 

MB Qual é a importância de uma empresa saber como ela estará daqui a alguns anos? Conhecer os caminhos que ela irá percorrer significa que ela está mais preparada para enfrentar o mercado atual?

RN Não dá para fazer profecias, é irresponsável dizer que o futuro será de determinada maneira. Dá para fazer hipóteses, entender como vai estar o mercado, quem serão os competidores e então se preparar para isso. A ideia é que antes que [a empresa] seja obrigada, ela já visualize quais sãos as alternativas de plano A, B, C e D. Quanto mais cedo criar caminhos individuais e rotas de fuga, mais cedo ela vai driblar crises e abraçar as oportunidades. Nem sempre quem tem planejamento tem visão estratégica, essa é a diferença. O planejamento, em geral, é quantitativo, diz quanto vai crescer em rentabilidade, mercado, e a visão estratégica dá uma visão de qualidade.

 

MB Você já afirmou anteriormente ser fundamental que o gestor seja capaz de possuir uma visão estratégica. Qual é o papel do gestor nesse processo de autoconhecimento do negócio?

RN Estamos deixando para trás a economia pós-industrial e entrando no mundo da economia do conhecimento. O que é mais importante é a empresa ter a capacidade de criar soluções diferenciadas, gerar valor agregado. O gestor que se vê num mundo em que se produzem coisas que todo mundo pode produzir – que é o mundo dos commoditys - está fadado a um ter resultados muito amargos, porque este é um mundo que está acabando. Quem produz dessa forma faz isso com o olho no retrovisor, enquanto quem produz com valor agregado está olhando pelo para-brisa. O gestor precisa ter noção de que é um líder e está ajudando talentos criativos a encontrarem soluções de valor agregado. Ele tem que se entender como o líder educador de um time que trabalha na economia do conhecimento.

 

MB Como um gestor pode desenvolver essa habilidade de enxergar antes o que só se torna claro depois?

RN Primeiramente, ele tem que ajudar as pessoas a entenderem como é urgente essa necessidade de pensar fora da caixa. Ter senso de urgência. Em segundo, ele mesmo tem que pensar fora da caixa. Em terceiro, estimular um espírito de ousadia na equipe. É muito diferente daquela bobagem chamada “A arte da guerra”, em que o líder é o executivo ninja, que vai exigindo dos seus soldados resultados de uma forma autoritária. Aqui, precisamos de uma visão organizacional, em que você é um cara que tem que desenvolver estratégias que maximizem o ganho de todos os players. Que está trabalhando com pessoas que querem ser devidamente valorizadas, que tenham seus talentos amplificados e com isso você vai estar em algo que se assimila mais do que com a de um exército.

 

MB Quais são as mudanças que os consumidores irão passar nesse período? Para que as empresas precisam estar preparadas?

RN O consumidor exige ser tratado como único, não gosta de ser colocado num sacão. O primeiro passo é muito complexo: as empresas terão que entender o mercado na base do um a um. Pegamos as teleoperadoras e perguntamos qual é a mais querida: nenhuma delas! Elas cresceram tão violentamente que ainda não conseguiram fazer o tratamento na base do um a um. Como resultado temos um giro de clientes monumental. Esse é um exemplo muito ilustrativo. O player que tiver capacidade de ter um conhecimento profundo a ponto de entender as pessoas uma a uma e, em segundo lugar, tiver a capacidade de comunicar de forma absolutamente privilegiada, vai ganhar enormemente.

 

MB Como as empresas podem se aproximar dos clientes e qual são os benefícios dessa aproximação?

RN A primeira coisa é a empresa ter uma percepção de empatia com o cliente. A empatia é das mais difíceis competências humanas. A coisa mais importante que existe no sistema educacional é ensinar as crianças a se colocarem no lugar do outro. Quando não temos isso, nos tornamos isolados ou monstros, ou os dois. Há uma necessidade de as empresas se tornarem empáticas. No século 20, a propaganda sempre foi do tipo “empurra”, entendendo de maneira muito precária quem é o cliente. A força é ter uma capacidade de se colocar no lugar do outro, algo que o marketing e a análise de mercado tentam fazer, mas de forma muito quadradinha. Isso precisa mudar. Só assim a empresa irá desenvolver uma solução para o seu cliente. Empatia passa a ser o nome do jogo, e o talento criativo e a colaboração são as novas bandeiras.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar