Escrito por Administrator Qua, 01 de Fevereiro de 2012 15:03
Mercado Brasil - Artigos
Por Julio Bin*
Recentemente participei de um painel numa escola de propaganda e marketing de São Paulo, onde alguns jovens davam depoimentos sobre suas conquistas pessoais e sucessos profissionais.
O objetivo era mostrar para uma plateia de universitários, como que a força de vontade e a dedicação a um sonho são fatores imprescindíveis na vida e carreira de um indivíduo. As características da nossa sociedade e as condições socioeconômicas não faziam parte do contexto, mas foi o que me fez sair do evento com este texto na cabeça.
O que chamou a atenção foi a história de vida de dois dos convidados. Um deles, jovem executivo de uma grande agencia de propaganda, contava o caminho que trilhou para chegar ao Olimpo olimpo desejado por 99% dos presentes naquele auditório: ser um publicitário de sucesso. Sua estória tinha um tom de rebeldia, repleta de momentos de espertezas e malandragens necessárias para driblar o sistema e, claro, sempre lembrando o apoio da família e “paitrocínio” necessário para completar sua renda durante os anos que trabalhou de graça ou ganhando muito pouco, enquanto adquiria a experiência necessária para, se tudo desse certo, ser efetivado como funcionário.
Logo depois outro jovem expôs a sua história e de forma simples e direta, desconstruiu a ideia de sucesso. Contou como nasceu e cresceu “do outro lado da ponte”, num ambiente hostil onde o estado deixou de agir há muito tempo tornando precários os serviços básicos como educação e saúde e onde também a sociedade sabe, mas prefere não ver o que acontece. Começou dizendo que todos ali provavelmente já tinham ouvido falar de como é viver nessa situação por meio dos noticiários, normalmente sobre a miséria, trafego de drogas, violência, criminalidade e, claro, sobre os bons projetos sociais que minimizam o abandono do estado.
Do outro lado da ponte é uma excelente metáfora para demonstrar as periferias pobres das grandes cidades. Em alguns casos é do outro lado do rio, do outro lado da estrada, morro acima, enfim, sempre existe algo que separa a pujança econômica da miséria e o descaso.
Enquanto ele falava, eu tentava imaginar o que se passava na cabeça daqueles universitários que provavelmente só conheciam essa realidade pelas telas de cinema ou na TV. Aquele jovem, ex-drogado, ex-ladrão, ex-traficante, excluído socialmente, contou como progrediu no crime e como sobreviveu (literalmente) para poder contar sua história. Disse que seu sonho maior era simplesmente fazer parte da sociedade. Queria vencer para ser reconhecido como indivíduo e para ter condições financeiras de consumir os produtos e serviços que habitam os desejos de qualquer pessoa.
De repente percebi que naquela sala estavam frente a frente, a causa e o efeito, a ação e a reação, o problema e a solução. O jovem da favela saiu da miséria extrema ao entrar para o crime organizado com a justificativa de que queria ser alguém e principalmente, porque queria ser respeitado. Foi bem sucedido em seu trabalho e conseguiu perceber que essa “carreira” tornaria sua vida muito interessante, mas curta, como a de vários de seus amigos.
Procurou ajuda para deixar de ser estatística e mudar o seu destino e teve a sorte de encontrar pessoas do bem, anjos vestidos de voluntários com a missão de recuperar pessoas que buscam alternativas de sobrevivência. Foi a partir daí que se tornou um mensageiro de como essa transformação é difícil, mas possível.
Minha leitura foi que a base de nossa sociedade é um sistema econômico que motiva os jovens a buscar o sucesso financeiro e social por meio do TER. Ter mais objetos de marca, ter um carro novo, uma cara nova, ter bugigangas que não precisam ter. Vivemos num sistema que educa seus jovens para uma guerra social onde o perdedor é excluído, desqualificado, desempregado e desamparado.
Estamos formando nossos jovens para que possam manter esse sistema funcionando e, nesse caso, para se especializarem na comunicação e venda de produtos e serviços que, quase sempre, são supérfluos. Independente da classe social, todos fazem parte da mesma sociedade e são cidadãos do mesmo país, mas vivem realidades completamente diferentes. O que possuem em comum são as mensagens que motivam seus desejos, isto é, são impactados pelos mesmos materiais publicitários.
Saí do evento com muitas perguntas na cabeça.
O que precisamos fazer para mudar esse modelo econômico que lucra convencendo pessoas a ter o que não precisam para ser felizes? Por que enxergamos os problemas sociais, sofremos com a ineficiência, a burocracia, reclamamos da falta de educação e saúde, da corrupção, das drogas, da morte de nossos jovens pela violência urbana e não conseguimos acreditar que contribuímos diariamente para que estes problemas existam?
O sistema está doente e com ele estamos todos nós. Valorizamos e transformamos em heróis aqueles que lucram ganham com essa doença e repugnamos aqueles que tentam se curar.
O economista e filósofo Adam Smith escreveu em 1779 um livro sobre a causa da riqueza das nações e concluiu que: se empresários, trabalhadores e consumidores se empenhassem de forma intensa aos seus próprios interesses, o resultado seria a qualidade de vida para todos. Em outras palavras, a soma dos egoísmos resultaria no bem-estar social.
É justamente esse modelo arcaico do capitalismo que fundamenta nossa sociedade até hoje. Está mais do que na hora de questionarmos a insustentabilidade desse modelo. O que realmente significa crescimento econômico? Até que ponto o consumo está associado ao bem-estar social? Por que as decisões empresariais são tomadas com base no lucro e não na vida?
Somos todos contribuintes desse sistema e isso significa também corresponsáveis pela solução, que deve surgir a partir da reflexão sobre o que realmente importa. Cabe citar a frase do educador Bernardo Toro: “o cuidado não é uma opção, ou aprendemos a cuidar ou deixaremos de existir.” Cuidar do corpo, do espirito, da empresa, das coisas, das pessoas, cuidar da vida.
Se esse texto faz sentido para você, está na hora de acreditar naquilo que já sabe e fazer algo para mudar o mundo ao seu redor. Serão os pequenos cuidados e atitudes do dia-a-dia que influenciarão outros a repensar. Esse movimento individual começará a ser coletivo e fará com que a sociedade passe a reagir e exigir que as grandes decisões que afetam o nosso destino, sejam mais éticas e menos cosméticas. Essa sim será a principal causa da riqueza de uma nação.
*Julio Bin é especialista em Negócios Sustentáveis pelo Programa de Liderança para a Sustentabilidade da Universidade de Cambridge/ Inglaterra.